Conta de investimento previdenciária, take 2

Esse assunto voltou à tona nos últimos dias, então vale a pena fazer uma atualização sobre o post anterior.

Em resumo, investir no Brasil, fora dos bancos, é difícil pra caramba. Muito por conta da tributação que é longa, complexa e cheia de meandros. Para incentivar os investimentos, alguma outra forma precisa ser implantada.

Para simplificar, o jeito é colocar a tributação na fonte e, até, incentivar o investimento através de estímulos diretos. Uma solução simples de implantar e simples de explicar seria a criação de contas de investimento específicas para isso. Funcionaria assim: dentro dessas contas, todos os rendimentos e ganhos de capital são isentos, e você só é tributado na hora que realiza saques. Seriam dois tipos de contas:

  1. Contas de investimento simples: Nessas contas os depósitos e saques não são incentivados. Os rendimentos e ganhos realizados dentro da conta ficam isentos. Os saques são isentos até igualar com os depósitos efetuados, e a partir desse ponto são tributados na fonte na alíquota fixa de renda variável (hoje de 15%).
  2. Contas de investimento previdenciárias: Parecidas com as contas simples, com a diferença que depósitos aqui podem ser abatidos na Declaração de Imposto de Renda com as mesmas regras de previdências privadas, e com a mesma tributação dessas na hora do saque.

Ou seja, essas contas funcionariam como “fundos de investimento pessoais”, onde as pessoas poderiam investir tranquilamente qualquer ativos regulados pela CVM, com tributação na fonte, postergada e super simplificada.

Mas não é só a tributação complicada que afasta os investidores da bolsa, mas também a mera declaração. Investir em fundos e previdências hoje é fácil porque vem uma única linha a registrar na DIRPF, a do próprio fundo, não importando quantos ativos esses fundos tenham internamente. A mesma coisa precisa ser aplicada as contas de investimento. Isso incentivará a diversificação de investimentos sem trazer a complicação de detalhar cada investimento.

A diferença entre as contas é para trazer o benefício fiscal que existem nas previdências privadas, um incentivo que já existe hoje, inclusive a ausência do imposto “come-cotas”. As formas de investimento indiretos continuariam iguais.

Gostou da ideia? Ajude a disseminá-la 🙂

Conta de investimento previdenciária

O noticiário de hoje me fez lembrar um antigo sonho: finalmente implantar no Brasil o conceito das individual retirement accounts, ou seja, contas de previdência pessoais, administradas pessoalmente.

A ideia é bem simples. A criação das “contas de investimento previdenciárias”, com características especiais, para incentivar a poupança e o investimento direto.

Essas novas contas poderiam ser abertas em bancos e corretoras, sendo de dois tipos diferentes:

Nas contas tipo 1 (CIP1) os depósitos e saques seguem as mesmas regras de isenção e tributação de previdência privada. Ou seja, depósitos aqui diminuiriam o seu Imposto de Renda anual, até certo limite. A vantagem seria fugir das taxas de administração, taxas de carregamento e taxas de administração das previdências privadas. Você mesmo escolhe os investimentos, você mesmo investe diretamente, reduzindo custos.

Nas contas tipo 2 (CIP2) os depósitos não geram isenção, e saques são isentos até o limite valor depositado. Assim só rendimentos e ganhos capital seriam tributados, no saque. A vantagem aqui é postergar e diminuir o Imposto de Renda, que seria cobrado na fonte de forma simplificada, numa tabela regressiva.

Nas contas poderia-se investir em quaisquer ativos regulados pela CVM, como fundos de investimento, ações, FII, LCI, LCA, LIG, FIP, FIP-IE, etc). Isso contribuiria para o aumento da responsabilidade pessoal, mas também para o desenvolvimento do mercado de capitais e financiamento do desenvolvimento nacional.

Além do controle passar para o investidor final, a constituição das contas permitiria também facilitar algumas questões que afastam as pessoas da bolsa de valores e dos investimentos estruturados: o Imposto de Renda confuso e mensal. Ter a possibilidade de compensar o IR entre classes de ativos e, ao mesmo tempo, simplificar sua cobrança, ajudariam a atrair mais investidores, profissionalizando o mercado.

E aí? Bora promover essa ideia?

Problema Java no Banco do Brasil / Ubuntu Linux

Hoje o site do BB resolveu não funcionar, para variar, por problema do plug-in Java.

Vai ser uma festa só quando essa $%@!& parar de funcionar de vez. O Chrome já deu um pé na bunda da integração Java a muito tempo, assim como outros navegadores. O Firefox será o último, mas também chegará o glorioso dia em que o derradeiro refúgio dessa péssima ideia desaparecer de vez.

no-more-java-plugin

Mas os bancos, pelo jeito, vão deixar pro último momento, em vez de sair o quanto antes dessa barca furada. Caso em pauta, hoje o site do BB não funcionou aqui. A solução? Dar downgrade no plug-in do Java. Em pleno 2016, forçar uma versão antiga de uma coisa que exige segurança máxima para funcionar.

Especificamente, rodei na minha máquina:

sudo update-alternatives --config mozilla-javaplugin.so

Que gerou o seguinte resultado:

Existem 4 escolhas para a alternativa mozilla-javaplugin.so (disponibiliza /usr/lib/mozilla/plugins/libjavaplugin.so).
Selecção Caminho Prioridade Estado
------------------------------------------------------------
0 /usr/lib/jvm/java-8-oracle/jre/lib/amd64/libnpjp2.so 1089 modo automático
1 /usr/lib/jvm/java-7-openjdk-amd64/jre/lib/amd64/IcedTeaPlugin.so 1071 modo manual
2 /usr/lib/jvm/java-7-oracle/jre/lib/amd64/libnpjp2.so 1075 modo manual
3 /usr/lib/jvm/java-8-oracle/jre/lib/amd64/libnpjp2.so 1089 modo manual
* 4 /usr/lib/jvm/java-9-oracle/lib/amd64/libnpjp2.so 1088 modo manual
Pressione enter para manter a escolha actual[*], ou digite o número da selecção:

Escolhida a opção 3, equivalente ao Java 8, e um reboot de navegador depois, funcionou.

Espero que isso lhe resolva. Mas bem sei que esse é só um dos milhares de problemas que de instalação, de configuração, de assinatura e de incompatibilidades que existem nesse assunto. Que, não custa lembrar, vão desaparecer junto suporte ao maledito plug-in.

Estejam os bancos preparados ou não. Avisos não faltaram.

Erro DIRPF / For input string: “9-e”

Mais uma declaração de Imposto de Renda no Linux, mais um problema. Não reclamo tanto porque sei o quão difícil é programar para “ambientes hostis”, mas reclamo ainda assim por não tem um canal de comunicação técnico para poder relatar os problemas (ou código aberto, ainda que não livre, para já mandar patchs de uma vez). O erro, no título, acontece logo de cara, ao tentar abrir o programa.

A explicação com solução. Num terminal (Ctrl+Alt+T), execute:

java -version

Esse primeiro comando mostra a versão padrão do Java da sua máquina. Na minha máquina retorna uma linha com “9-ea” no final, e isso causa o problema. O pessoal da Receita está tentando ler o “9”, mas o “-ea” causa um erro, que por sua vez derruba o programa. Não muito esperto.

Com isso e mente, execute um segundo comando:

update-alternatives --list java

Esse comando mostra uma lista de versões alternativas do Java, instaladas na sua máquina. No meu caso:

/usr/lib/jvm/java-7-openjdk-amd64/jre/bin/java
/usr/lib/jvm/java-7-oracle/jre/bin/java
/usr/lib/jvm/java-9-oracle/bin/java

A versão da DIRPF 2015-2016 instala num caminho padrão, cujo ícone tem o seguinte comando:

/usr/lib/jvm/java-9-oracle/bin/java -Xms128M -Xmx512M -jar ~/ProgramasRFB/IRPF2016/irpf.jar

Que você vai perceber, é um comando que começa com uma das alternativas listadas acima. A solução, bem simples, é substituir a primeira parte por uma das alternativas e rodar no terminal, até funcionar. A ideia é pegar uma das alternativas, indo da maior versão para a menor, sempre preferindo a versão da Oracle (infelizmente).

Eu consegui abrir com a penúltima das alternativas (que minha máquina é a versão 1.7.0_80), mas não fui até o final da declaração ainda para ter certeza.

Tente aí, e comente o sucesso ou insucesso. Ficarei feliz com os agradecimentos, e posso tentar ajudar os casos que não resolver.

E sorte, claro.


ADENDO: Para facilitar, criei um script que tenta os caminhos padrão listados acima. E não, executar código aleatório das internets não é lá muito seguro. Dado o aviso, o script está disponível aqui, e pode ser baixado, habilitado e executado com as sequências abaixo:

wget https://raw.githubusercontent.com/alfsb/dirpf/master/dirpf20152016-init.sh
chmod +x dirpf20152016-init.sh
./dirpf20152016-init.sh

Agradeço quem comentar os caminhos de alternativas Java, versão 7 ou maior, não listadas acima, para complementar o script.

Erro ao acessar a Extrato de Processamento DIRPF na Receita Federal / eCAC

Esse é um erro que vira e mexe aparece, então aproveitar para documentar a solução de contorno.

Depois de logar no eCAC, ao clicar no link do Extrato de Processamento DIRPF, parte da página fica em branco ou aparece um erro. Isso é um problema técnico (um problema de certificado digital não reconhecido em conjunto com um HTML IFRAME). O resultado interno é um erro de segurança, que não aparece, então não é possível contorná-lo.

A solução é:

  1. Acessar e logar no eCAC normalmente.
  2. Utilizar um desses links diretos:

Vai aparecer um erro de segurança, dizendo que o certificado não é confiável. Daí é executar os procedimentos do seu navegador para contornar esse erro.

Como a cadeia de confiança de certificados utilizada no Brasil não vem embutida nos navegadores, então essa a mensagem está tecnicamente correta. Porém o site da Receita está montado de tal forma que esconde esse erro, o que torna impossível acessar a página.

E é isso. Sorte com o leão.

Temperatura em função da pressão relativa, ar como gás ideal

Eu me meto em cada uma…

Mas antes de mais nada, a resposta: y = 2062,203 * exp( ( ( ln(x) + 3,254 ) ^2 ) / 185,219 ) – 1911,206 (para pressões > 0,33)

E esse impressionante resultado começou com a seguinte conversa: “André, eu preciso da inversa de uma função”.

Ok, pensei eu, inversões de função existem algumas online, isso não vai requerer nem instalação de software especializado. Qual função?

“A inversa da função dessa tabela“.

Ah… Não é a inversa de uma função conhecida… Primeiro é preciso deduzir uma função apropriada à tabela para depois inverter. Imediatamente vem aquele feeling de problema mal especificado…

Tabela de termodinâmica, gráfico da função uma exponencial para cima não lá muito “redondo”. Como eu entendo quase nada da matemática subjacente à termodinâmica macroscópica, a conversa seguinte foi no sentido de determinar a natureza do gráfico da função. Respostas no sentido de ser polinomial de 4ª ordem.

Uma inversa de um polinômio à quarta? Isso não vai ser muito pequeno…

Foram bem umas duas horas lidando com sites que “descobriam” os fatores apropriados à funções polinomiais. Sem muito sucesso, porque os resultados quando plotados não ficavam lá muito parecidos com o gráfico inicial. Tentativas de diminuir o grau do polinômio não foram muito melhores. Fora que as inversões dessas funções davam uns monstrinhos de mais de página, como esperado. A fome bate e a pesquisa é interrompida para almoço.

Durante o almoço a conversa continua sobre o problema. Ou antes, como seria a solução do problema. A conversa se desvia para o truque conceitual que o pessoal da matemática/computação as vezes usa para problemas que são intratáveis: apelar a um oráculo.

No caso, um oráculo ideal, onisciente e onipotente. Claro que fazer um oráculo assim é impossível na prática, mas supondo que existisse tal oráculo, que tipo de resposta que esperaria que ele fornece?

Nisso o cara para e pensa: uma resposta curta, uma linha.

Bom, esse é um problema bem diferente do inicial. Em vez de procurar uma função da tabela para depois inverter, inverte-se a tabela e procura-se uma função curta que aproxime a nova tabela. Talvez seja tão difícil de enumerar um problema quanto o outro, mas agora há uma restrição artificial (uma linha), que pelo menos o torna menor. É impossível de construir um oráculo que “tente” todas as combinações de fórmulas e parâmetros, mas é bem mais fácil de construir um oráculo que tente fórmulas curtas.

Até isso já tem pronto, online, hoje em dia. Com direito a repositório de funções, multi task hospedado, programação genética para evoluir fatores e relatórios com tal requinte de informação que coloca muito trabalho universitário no chinelo… (ver abaixo)

20 minutos depois a resposta aparece. Aliás, várias, já devidamente ordenadas por aderência aos dados informados.

E a resposta escolhida é bela. Suficientemente curta para ser operada algebricamente (outro requisito, não demandado inicialmente) e suficientemente aproximado para ser usado como uma inversão interpolada. Uma interpolação invertida de uma tabela empírica, devo acrescentar…

Seria tema de livros discutir as implicações filosóficas de uma função aleatória que dá a interpolação de um processo físico. Ainda mais uma função que não tem a estrutura da processo interpolado, menos ainda, invertido. Mas não deixa de ser um daqueles raros momentos que a força bruta ingênua acaba produzindo um resultado inesperadamente útil.

Detalhe: como a solução usou de programação genética para evoluir os parâmetros, então fórmula e parâmetros são aleatórios. Tudo, enfim.

O momento que a lista de soluções apareceu e o cara se entusiasmou de ver a aderência me fez lembrar de uma passagem de Travelling Salesman, onde um truque levemente diferente (a transmutação de um problema em outro) torna um problema impossível em possível, apenas com um rearranjo de forma. No meu caso, foi o abandono da explicação “correta” que levou a solução “boa” (que o pessoal da psicologia reconhecerá como um caso de rigidez funcional). O inicialmente queria a inversa de uma função desconhecida, mas o que ele precisava era de uma função algebricamente simples que fosse próxima da inversa da tabela. Que em retrospectiva é óbvio: uma interpolação de um processo empírico é por definição impreciso. Então uma aproximação aleatória é perfeitamente válida.

Bom, é isso.

Se teve paciência de ler até aqui, bem imagino que és uma pessoa bem nerd, que provavelmente tem amigos nerds engenheiros. Se quiser ter umas discussões bem incomuns com eles vai a dica: repassem aos amigos engenheiros apenas o título da mensagem e a fórmula acima, e peça a eles a tentarem validar o resultado ou ainda explicar se está “certo” a fórmula. Já adianto que será confuso pra caramba para eles e para ti 🙂

Agora, se achou o desafio interessante e quiser replicar por conta própria, os inputs únicos são:

  • Paginas 14 e 15, colunas 1 e 3 disso;
  • A inversa delas, em uma linha.

E boa caça 🙂

 

EDIT: Poucas semanas após a publicação do post o serviço saiu do ar, passando da existência a um mito. O fonte ainda sobreviveu, mas não o serviço pronto. A internet se tornou um lugar um pouco menor, com a perda desse desconhecido, mas impressionante recurso 🙁

Ubuntu 14.04 LTS & Gnome Clássico

Estou viajando para SP, e portanto a velha história de fazer backup e por a produção no notebook velho.

Produção. Meu micro tem lá os seus ares de servidor, com processos rodando continuamente. E daí a minha preferência por versões long term support (LTS) do Ubuntu. A que eu rodo no meu desktop é a já antiga 12.04. Pensei em tentar a 14.04 no notebook, já que ele estava desatualizado num remotíssimo Ubuntu 10.10.

Sim, o notebook é velho assim.

Surpreendentemente o Ubuntu 14.04 funcionou num antiquíssimo CCE. E claro, também, tive problemas com lamentável placa de vídeo SiS 771/671. Curioso como foi, durante a instalação a resolução estava alta, mas depois de instalado a eu vi o mundo novamente em 640×480. Depois de me açoitar mentalmente por ter esquecido desse chato detalhe, a segunda surpresa foi ter uma solução simples e rápida (e em português). A terceira surpresa foi ter visto, pela primeira vez, a resolução nativa da tela desse meu antigo hardware.

Porém, mesmo com tantas surpresas, veio a lentidão de tentar rodar um ambiente gráfico Linux sem uma placa especializada. Ou seja, arrancar o Unity, ou pelo menos reduzir a zero as animações.

Reduzir as animações mostrou-se improdutivo. Não há como eliminar todas as animações. Cheguei num ponto onde a única alternativa então era remover o Compiz, mas fazer isso tinha um prospecto bem ruim.

As pesquisas de remoção de animações meio que direcionavam para contornar o Unity, sem removê-lo: instalar o Xfce e, na prática, converter o Ubuntu Desktop num Xumbuntu.

Chame-me de antiquado, mas o que eu queria mesmo era o Gnome 2. E pesquisas outras revelaram poucas chances de conseguir qualquer coisa parecida sem muito trabalho. Não queria forçar o Cinnamon sobre o Unity, nem sair do ecosistema do Ubuntu para conseguir esse resultado específico no Mint. O Gnome Classic (fallback) também não parecia disponível sem muito trabalho.

Eis que no meio das pesquisas surge um tal Gnome Flashback, disponível para instalação e, depois disso, a um logout/login de distância do funcionamento. Nunca tinha ouvido falar, e meio derrotado fui tentar para ver de qual era.

E foi PERFEITO.

Eis um projeto que eu espero que viva para sempre.

Até me peguei pensando em quanto código era necessário para criar um ambiente assim. É literalmente o Gnome 2, rodando em bases modernas.

Se um dia ele se tornar instável, talvez ainda tente o Fallback. Mas até segunda ordem, é Flashback mesmo!

Interrompemos a programação normal para falar da Nova Poupança

Nessa última semana de férias, estava eu na rua quase todo dia resolvendo algumas coisas.

Fins de tarde de quinta estava numa Corretora de Valores, para tratar de estratégias em fundos imobiliários, já sendo recebido com as notícias das novas regras da Caderneta de Poupança. Com a mente engrenada no primeiro assunto, acabei nem prestando muita atenção à mudança, no máximo considerando rapidamente porque dos 30% de deságio em relação à meta SELIC.

Resolvido os assuntos na corretora e novamente na rua para ver outros assuntos ainda, não tardaram a ligação de amigos, um a um me avisando das alterações, assim que eles ficavam sabendo da novidade. Fora a história que é notório que eu acompanho coisas de macro-economia com afinco (apesar de não ser da área), havia uma questão implícita em algumas dessas ligações.

E ai? Aquilo que eu tinha discutido no meu post anterior ainda valia? Ou de outra forma: As mudanças na remuneração dos novos depósitos em Caderneta de Poupança teriam que efeito sobre os saldos depositados futuros?

Essa é uma questão deveras complicada de responder, porque não é uma questão só de números. É um exercício de futurologia mais adequado a economistas comportamentais. Ou ainda aos sociólogos.

Bom, voltando a história. De sexta a sábado os dias passaram ocupados, mas hoje eu pude me dedicar a fazer contas. Senão para fazer futurologia comportamental, ao menos para entender o assunto e poder continuar a me meter na vida financeira de meus conhecidos, quer eles queiram ou não.

O resultado dessas contas vai no post seguinte, onde considerações numéricas imperam.

Mas o exercício em si foi muito interessante por ter-me fornecido alguns insights que só a manipulação dos dados pode proporcionar, e eis o motivo desse post em separado, anterior.

A poupança continua um péssimo negócio

Era ruim antes, continua ruim agora. Quem lamenta “por que agora ia melhorar” provavelmente é a pessoa que já perdeu muito dinheiro na Caderneta de Poupança, mais provavelmente sem nem se dar conta.

É complicado

Fazer as contas para comparar é complicado, cheio de meandros. A matemática de mexer com exponenciação de juros é inacessível e mesmo incompreensível à grande multidão, mesmo a letrada.

A questão, aqui, é que é mais complicado fazer a conta dos CDB/Tesouro Direto/fundos de renda fixa que da poupança. Sim, a conta do rendimento da Caderneta de Poupança está mais complicada, mas nem de longe com relação às alternativas não tão populares.

Revanchismo

Talvez haja alguma migração da caderneta de poupança para outras linhas de investimento, mas eu duvido. Ou, no caso, duvido que seja por por razões racionais.

Folclore

Embora a conta seja complicada e que a conclusão geral seja que a poupança é um péssimo negócio, a diferença prática entre rendimentos da simplória Poupança frente aos seus “concorrentes” é mínima, no final das contas.

Jornais tem demonstrado isso bem. E quem de fato comparar as diferenças de aplicações talvez prefira a simples e familiar Poupança que se aventurar em outras searas.

Custos

A Caderneta de Poupança não tem IR, e também não tem Taxas de Administração ou Taxas de Custódias cumulativas. Coisas essas que faziam menos diferenças com a SELIC em dois dígitos. Mas que fazem enorme diferença com taxas de juros reais abaixo de 5% a.a.

Cultura

Os elementos acima são salientes para fazer notícia ao investidor simplório sem com isso alterar muito suas decisões. Talvez tenha mais apelo ao investidor sofisticado, mas este muitas vezes está refém de gerentes de conta que tomam decisões não ótimas aos seus clientes. A tendência é a manutenção da cultura atual.

Anti-folclore 1: Prazos

Há muitas considerações a fazer na ponta do lápis. Mas todas elas apontam que a diferença só se torna evidente no prazo maior, dois anos ou mais. Não só pela questão do IR, mas também porque a diferença é bem pouca mesmo, o que vai exigir do investidor realmente aplicado muito esforço para tirar uns centésimos de diferença.

No curto prazo, é um esforço praticamente desperdiçado.

Anti-folclore 2: Cultura do CDI

De todas as frentes para acabar com a cultura do CDI, essa talvez seja a mais inesperada. Acabar com o piso de rentabilidade da Poupança, empurrar a SELIC a valores inusitados e retirar do mercado as LFT colocou os fundos de renda fixa num bico de sinuca.

Vai demorar até essa percepção chegar ao investidor final, mas esse foi um grande trunfo dessa mudança. Pelo menos ao que concerne o investidor pessoa física, o rendimento real sem risco desapareceu.

Anti-folclore 3: Nominal vs Real

Um dos pilares da Cultura do CDI, a dicotomia rendimento nominal versus rendimento real, está desaparecendo. Curiosamente, a aproximação entre entre esses dois valores pode ser grande razão pelo aumento do conhecimento da população geral no que se refere a suas finanças.

Anti-folclore 4: Taxas reais negativas

Para fechar, algo na linha do “Nunca antes nesse país”. O custo de investimentos administrados é fixo, e uma taxa de juros básicos decrescentes pode levar rapidamente a taxas nominais marginalmente positivas, e taxas reais negativas.

Isso é a realidade (não percebida) na Poupança desde sempre, mas agora vai virar mania nacional, muito por conta da popularização do assunto por jornais.

Enfim…

Esses são tempos interessantes, sem dúvida. E muita água vai rolar por ai. Seja no campo comportamental, seja no campo bancário, seja no político, essa alteração tem ramificações interessantes.

Não apenas no cômputo geral de rentabilidade ou numa bolha imobiliária, mas porque o assunto da rentabilidade “fixada” da poupança realmente criava vícios tão tipicamente brasileiros que não havia análise externa possível.

A retira da rentabilidade mínima fixa da Caderneta de Poupança abre uma nova era no país, num sentido literal.

Infelizmente deixa toda a população um pouco mais suscetível a terrível e ignorada realidade dodinheiro sem lastro. Mas também abre a via que nos permita caminhar, talvez, no desenvolvimentalista caminho do crescimento pela estabilidade.

Já tivemos um gostinho de como é isso, claro.

Mas à “juros civilizados”, o negócio entra numa dinâmica completamente nova.

A poupança já acabou

No meu post anterior eu comecei a falar de bolha imobiliária. E nesse farei uma breve explanação gráfica do porque de uma das minhas preocupações.

Mas como sou um péssimo contador de histórias, vou começar pelo final. E o final é esse gráfico aqui:

imobvsdirecionamento

O gráfico não é lá muito intuitivo, e por isso mesmo vou ter de gastar algum latim.

Tudo começa com a Poupança, é claro. A Caderneta de Poupança é o investimento mais tradicional do Brasil, muito por conta da sua simplicidade folclórica, e menos por conta de suas qualidades reais. Tanto a “captação” de Cadernetas de Poupança como os “direcionamentos” são definidos em lei e em inúmeros outros dispositivos legais. Mas para efeito dessa discussão, o grosso que se precisa saber é o seguinte: os valores captados (depósitos) em Poupança tem direcionamentos obrigatórios, ou seja, devem ser aplicados de uma maneira bem específica, a saber:

  • 65% em financiamentos imobiliários
  • 20% em encaixe obrigatório
  • 10% em encaixe obrigatório adicional

Para quem não acompanhou a conta, isso dá 95% em direcionamentos obrigatórios, sobrando só 5% para os bancos aprontarem. “Encaixe obrigatório” aqui significa compulsório, ou seja, os valores que o Banco Central exige que os demais bancos mantenham parado em vez de emprestar.

Ou seja, para cada R$ 1 depositado em Poupança, R$ 0,65 devem ser usados em financiamento imobiliário, R$ 0,30 tem de ficar parados (e ainda assim são um ótimo negócio para os bancos) e somente R$ 0,05 podem ser re-emprestados em outros linhas.

Esses 65% tem regras próprias, no entanto. Os “financiamentos imobiliários” devem ter a seguinte composição:

  • 80% em financiamentos do SFH
  • 20% em financiamentos à taxas de mercado

SFH aqui significa o Sistema Financeiro da Habitação, o conjunto legal de incentivo à moradia própria, geralmente à taxas subsidiadas e com regras de valores máximos de parcelas, imóvel, renda, etc. “À Mercado” se referem a financiamentos imobiliários que não seguem essas regras, em especial na questão das taxas subsidiadas.

Bom… Quando falamos de financiamento imobiliário, nos referimos explicitamente às esses 65% de toda Poupança do Brasil. De maneira geral, os bancos brasileiros só financiam imóveis aos muito ricos, de forma que quase todo financiamento imobiliário que alcançam os pobres mortais no Brasil vem dos direcionamentos obrigatórios da Poupança, sejam eles os 80% de 65% (barato, subsidiado) ou os 20% de 65% (à mercado, mais caro).

Até aí, tranquilo. Mas estamos falando de quanto, exatamente? Notícias sobre aumentos ou diminuições nos saldos de Poupança são lugar comum no mercado financeiro. Mas para ter uma noção melhor, vamos ilustrar os saldos da Poupança com os dados maravilhosamente agrupados pelo Banco Central:

sbpe-fontes

Nesse gráfico os anos de 2001 a 2008 estão agrupados, e de Janeiro/2009 para frente os saldos são apresentados mensalmente. “Poupança” aqui se refere aos saldos de Cadernetas de Poupança. “Subsidiado” se referem a Repasses, Refinanciamentos, Fundos e Programas Sociais. “LH,CHe,DII cap” se referem a Letras Hipotecárias, Cédulas Hipotecárias emitidas e Depósitos Interfinanceiros Imobiliários captados.

Abra o gráfico, olhe-o com calma. Os valores da Poupança, em verde, apresentam clara subida, porém num ritmo visualmente constante. O último valor da série, em Janeiro/2012, o saldo de todas as Cadernetas de Poupança brasileiras estão informadas em R$ 332.039.923.000,00 (R$ 332 bilhões para os preguiçosos). O saldo de todas as fontes que compõe o SBPE estão informadas em R$ 452.506.629.000,00 na mesma data.

Bom, nós vimos antes que 95% desses valores tem direcionamentos obrigatórios. O problema agora é ter contra o que comparar esses valores. Embora o noticiário econômico seja pródigo em noticiar o saldo da Poupança mês a mês, o mesmo não pode ser dito sobre os saldos do SFH: as notícias falam muito dos valores de novas contratações. Mas os direcionamentos da Poupança são calculados a partir dos saldos, e os valores de captação nada nos dizem a respeito da viabilidade (ou não) da Poupança como funding imobiliário. E, novamente, o Banco Central nos fornece a informação concentrada numa série temporal:
sbpt-usos

Comentários amenos: Os detalhamentos das legendas podem ser vistos direto na fonte dos dados. E o valor total do último item da série é R$ 406.848.268.000,00. Uns 90% do valor do total do SBPE.

O importante, o grande pulo do gato é que nessa série temporal aparecem os valores em financiamentos imobiliários no Brasil, tanto aqueles amparados na regra do SFH (em verde), como aqueles ditos às taxas de mercado (vermelho).

Agora é questão de separar as informações interessantes e colocar num único gráfico. E o que eu fiz foi o seguinte:

  • os financiamentos do SFH, em azul
  • os financiamentos às regras/taxas de mercado, em vermelho
  • o valor de 65% do saldo de Poupança, menos as parcelas anteriores

O último item merece explicação. Eu queria um gráfico que demonstrasse o quanto as parcelas de financiamento do SFH/mercado “impactam” o direcionamento obrigatório. Para tanto, montei um gráfico de áreas empilhadas no LibreOffice. Financiamentos SFH e financiamentos à mercado são parcelas que se somam, simplesmente. Mas os 65% da Poupança são um “limite”, e portanto apenas fiz subtrair as duas parcelas, de forma que o resíduo, já somado, desenhasse justamente o limite.

O problema é que o gráfico ainda precisou de um último ajuste, que foi tornar a série “65% Poupança” semitransparente. E para a comodidade, eis o mesmo gráfico:
imobvsdirecionamento

No começo do gráfico os valores e financiamentos aparecem “abaixo” do limite de 65%, como era de se esperar. Mas com o passar do tempo os financiamentos sobem de saldo num ritmo maior que o saldo das Poupanças. Novamente, nenhuma novidade para quem acompanha o noticiário.

O interessante ocorre em Abril/2011. Nesse mês, os saldos de financiamentos não só “tocam” o limite de 65% da Poupança como o ultrapassam. Não só isso. A partir desse mês, os saldos continuam a subir acima da Poupança, “manchando” a minha série “À Mercado” com um vermelho mais claro.

Essa mancha representa o excesso de financiamentos imobiliários para além do direcionamento obrigatório dos saldos de Poupança.

Ou de outra forma, mas com todas as palavras: A Caderneta de Poupança como funding imobiliário, pelas regras atuais, já está esgotada a algum tempo.

Essa afirmação é espantosa (até para mim), e deve ser tomada com cuidado (eu posso ter errado alguma conta). Mas se excetuando essa última, infelizmente sou o portador dessa má notícia.

“Como então o mundo imobiliário não ruiu em chamas”, dada essa constatação?

Quanto a esse óbvio e necessário questionamento, só posso dizer que a escolha da ordem das séries no último gráfico é intencional. Ainda usando a analogia visual da “mancha”, note que o excesso de financiamentos só “empurrou” os financiamentos “à mercado” para além do limite de 65% da Poupança. Esses financiamentos já não eram lá baratos, e eles perderem o funding barato não causaria tanta comoção.

Alguma alteração mais grave ocorrerá, imagino, quando a faixa de financiamentos do SFH ultrapassar esse limite.

Os financiamentos “à mercado” seguem regras próprias e em condições de mercado. Se utilizam ou não a Poupança como funding é uma mera questão de usar um dinheiro barato e disponível. Os bancos são obrigados a fazer financiamentos imobiliários com 65% do saldo de Poupança, e desses 65%, 20% podem ser à mercado. E os bancos o fazem, claro, emprestado mais caro grandes somas que obtêm muito barato.

Mas os financiamentos do SFH só existem por causa do funding barato da Poupança. Uma vez que essa fonte de financiamento se esgote, esse será o dia que o financiamento barato desaparecerá.

O financiamento barato desaparecerá. O financiamento caro, “à mercado”, muito provavelmente continuará.

O problema, daí, é que financiamento caro não raro significa financiamento nenhum. Mas isso é assunto para outro dia.